Jul 30, 2014

Vinil Vintage: do chiado ao saudosismo

por Giovanni Perlati
publicada originalmente na Revista Ethos, de Barra Bonita

Eles surgiram na década de 1940 se tornaram uma coqueluche nos anos 70 e 80, fizeram a trilha sonora dos bailes de garagem, uniram muita gente nas discotecas, mas com os avanços da tecnologia, logo foram substituídos. Os Long Plays (LP’s), popularmente conhecidos como discos de vinil, assistiram das prateleiras dos cebos e depósitos, o surgimento e evolução das mídias como a fita K7, o Compact Disc (CD) e mais recentemente a Mp3.


Já faz algum tempo. Nossos olhares atentos ao mundo virtual e digital nem reconhecem mais o chiado e o barulho de quando a ultima faixa terima e está na hora de virar o disco. Alías foi isso que a indústria fonográfica fez, virou e esqueceu o LP. E quem diria que em meio à era da mídia invisível, da música à venda no Itunes e do acesso facilitado pela internet, o velho bolachão preto ainda faz os olhos e os ouvidos de muita gente brilhar por aí. Tanto é verdade, que os aficionados por LP’s estão ressurgindo e aos poucos formam um mercado de compra, venda e troca para compor seu acervo.

A paixão pelos vinis, desde criança, transformou o autônomo Everton Luiz da Silva Barbarossa, 31 anos, em uma espécie de referência no assunto na cidade de Jaú. Com aproximadamente 1500 discos em sua coleção, o gosto pela velha mídia foi herança de seu pai. A facilidade de comunicação proporcionada pela internet e a busca por novos exemplares fez com ele expandisse seus contatos e para manter esse acervo ele negocia com pessoas de várias partes do país.

“Desde pequeno, meu pai e meu tio sempre escutavam e eu aprendi a gostar também. Eu vivi muito à fase dos CD’s, vi o vinil ‘quase morrer’ e ressurgir. Ai um dia me deu uns ‘cinco minutos’ e resolvi ir atrás de um aparelho e comecei a ‘caçar’ novamente os discos,” afirma Barbarossa. A maioria dos negócios feitos por ele, têm os contatos iniciados em um grupo fechado no Facebook. O grupo Vinil Vintage, foi feito especialmente para comprar, vender e trocar discos de vinil e atualmente tem 120 membros.

José Benaelso Sobral - Foto: arquivo pessoal/facebook
Foi em 1967, quando o técnico judiciário José Benaelso Sobral, 60 anos, adquiriu o seu primeiro compacto de vinil. Fã de Beatles, como todo jovem da época, o item tem um valor especial mesmo que com apenas duas músicas: Please Please Me e From Me To You. O item raro ainda compõe o seu acervo, onde já existem 1300 discos dos gêneros mais variados. Destes exemplares, pelo menos 300 ele reserva para negociar com outros colecionadores.

Hoje, 46 anos após o primeiro bolachão, Sobral é taxativo ao afirmar porque prefere o LP às outras mídias mais recentes. “O som do CD não tem peso, a arte gráfica do vinil é incomparável. São verdadeiras obras de arte. Toda a magia, energia e graves somem no CD. O som do vinil é muito mais encorpado e mais próximo do som imaginado pelo artista, além do mais o ser humano é analógico e não digital (leia Analógico x Digital),” justifica o colecionador.

Feirinha

O número de colecionadores em Jaú tem crescido tanto, que eles mesmo têm se mobilizado para promover a prática. Nos meses de julho e agosto de 2013, a feira Venda e Troca de Vinil, foi realizada por outro grupo local do Facebook. O grupo Eu Gosto é de Vinil, com 411 membros, reúne não só colecionadores, mas todo tipo de gente que tem algo a compartilhar sobre o assunto. A feirinha reúne os apaixonados em um bar local, com som ao vivo os interessados pagam um ingresso simbólico ou um quilo de alimento não perecível, levam seus discos para troca ou venda e aproveitam para conhecer e socializar com os amigos virtuais.

Arte além da música

É consenso entre os colecionadores. O rock and roll foi o maior responsável pela paixão destes aficionados por discos. A indústria fonográfica da época sempre trabalhou com os artistas Pop, aqui no Brasil com a música Sertaneja, Pagode, a popular música romântica conhecida como brega e até as bandas do tímido rock nacional. Porém é impossível falar sobre discos de vinil sem citar as grandes obras do rock internacional com artistas como Elvis, Beatles e Rolling Stones.

“Eu sou bem eclético, mas dos meus discos 70% são de rock e uns 30% de outros gêneros”, afirma o representante comercial, Veimar Alexandre Franzini, 41 anos. Em seu acervo de 346 discos, o álbum Metamorphon dos Rolling Stones é o favorito. “O curioso desse disco é que foi feito com sobras (composições) de estúdio na época em que os Stones estavam trocando de gravadora para lançarem seu próprio selo. Para mim é um dos trabalhos mais criativos da banda.”

A história do rock e do Long Play se confundem neste caminho musical, principalmente no período que marca o final da década de 1960 até meados de 1990, quando o CD foi popularizado. A embalagem gráfica ilustrada era um dos diferenciais, pois fazia com que a obra fosse composta não só pelos artistas músicos, mas também pelas artes nas capas e encartes. Alguns destes álbuns são inesquecíveis não só pela sua música, mas por causa do apelo emblemático na ilustração ou na foto impressa.

The Dark Side of The Moon - Pink Floyd
Como o ser humano é acostumado a, nas entrelinhas, julgar o livro pela capa, as obras feitas por ilustradores ou fotógrafos de forma rudimentar era o que atraia os fãs para o consumo da música. Algumas destas capas foram eternizadas pela crítica, pelos ouvintes e marcaram momentos do rock, como o disco The Dark Side of The Moon da banda Pink Floyd, Alladin Sane do cantor David Bowie, a polêmica capa do Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band dos meninos de Liverpool e a tradicional faixa de pedestres do disco Abbey Road, também dos Beatles, ou então, o bebê nu em uma piscina, retratado no disco Nevermind, da extinta Nirvana.

Na visão dos colecionadores, o vinil possibilita o consumo da música não só com os ouvidos, mas com os olhos e com a alma. “Acho que é um lance mais sentimental“, afirma o autônomo Everton Luiz da Silva Barbarossa, 31 anos. O fato é que a cada vinil na estante, esses apaixonados por discos sentem-se donos de uma riqueza artística incalculável e esquecida pela modernidade, mas não menos valorizada por quem realmente sabe reconhecer a qualidade destes trabalhos.

Analógico X Digital

Parte do processo de fabricação do disco de vinil.
Entre histórias, gostos, nostalgias e o som da agulha acariciando o vinil. A cada rotação no toca discos, uma memória, uma lembrança, ou apenas uma boa música para se ouvir. Afinal, que há de tão diferente entre o LP e o CD? Será somente saudosismo exagerado ou realmente o som dos LP’s é superior ao do CD. Os amantes do bolachão defendem com riqueza de detalhes as vantagens em se consumir música na versão analógica.

“O som do vinil é mais próximo do real. As frequências são mais reais, os graves são mais fortes e mais aveludados e os agudos são mais doces no vinil e ainda tem a capa que é mais apresentável do que no CD”, afirma o representante comercial, Veimar Alexandre Franzini, 41 anos. O chiado característico da agulha percorrendo o disco e os traços sonoros parecem levar a música o mais próximo possível das frequências percebidas pela audição humana, enquanto no CD esses fatores podem ser facilmente prejudicados pela tecnologia digital.

De qualquer forma é possível tirar uma importante reflexão em torno desta comparação entre o analógico e o digital. Os discos de vinil não são tão simples de serem pirateados em contrapartida ao CD, DVD e é claro da distribuição desordenada de Mp3. Talvez uma possível solução para a infindável crise na indústria fonográfica, porém não tão simples assim em função do custo para se produzir esse tipo de mídia novamente.

Vanguarda

Ainda sim, é possível comprar tanto os toca discos, quanto discos novos e usados. No Brasil existe a Polysom situada no Rio de Janeiro. A fábrica de vinis foi uma das centenas a fecharem pela crise da indústria. Mas com a volta da demanda pelos discos de vinil nos Estados Unidos e Europa, a fábrica reabriu sob nova direção e hoje trabalha na confecção de versões analógicas de vários artistas da atualidade.

Nomes como Nação Zumbi, Tom Zé, Marcelo D2, Pato Fú, João Bosco, Iron Maiden, Daft Punk, entre outros, se mantém explorando este nicho de mercado. Colocando nas prateleiras de livrarias e lojas especializadas, suas obras atuais na versão LP, e assim, contemplando os fãs assíduos pelo bom e velho disco de vinil.

Fotos: não foram as mesmas publicadas na Revista Ethos originalmente em 2013, foram retiradas de arquivos pessoais e imagens do google, apenas para ilustração.

Jul 29, 2014

Microdermal ganha preferência do público

No universo das modificações corporais ter adereço discreto é opção estética e menos invasiva

por Evelyn Nadaletto
colaboração Giovanni Perlati

Thais Izar; detalhe no antebraço.
Imagine-se com um piercing no pescoço, ou quem sabe se sua língua fosse separada ao meio e se transformasse em duas. Que tal implantar metal sob a pele para mudar o seu aspecto físico. Parece algo dolorido e assustador á primeira vista, mas cada vez mais os procedimentos chamados de Body Modification ganham adeptos pelo interior.

A justificativa pela procura desta técnicas modernas está na necessidade que o ser humano tem de se expressar diferentemente dos demais. Deste modo muitas pessoas utilizam das técnicas de tatuagens e body modification para destacar preferencias religiosas, artísticas, culturais e talvez a com maior apelo, a estética.

Em tempos em que se prima cada vez mais por aperfeiçar as curvas do corpo, e em muitos casos se faz uso de susbtâncias proibidas, os body moders, como são chamados os adeptos das modificações corporais preferem ir na contramão e quase sempre provocam incomodos nas pessoas tidas como dentro dos padrões estéticos impostos pela sociedade.

Implante subcutâneo
A body piercer Thaís Izar, diz que achou a técnica com um resultado estético final muito bonito. Há cerca de 20 dias ela colocou o seu primeiro microderamal no braço e agora se prepara para o aperfeiçoamento na técnica e para posteriormente aplicar no estúdio no Grillo Tatoo, em Jaú. “Vi pela primeira vez na internet e de cara já gostei. Nisso já me passou pela cabeça fazer uns no meu corpo e inovar o Studio, aprender as técnicas para aplicação. O microdermal é novidade, é como se fosse o 'novo piercing' e por ser mais discreto talvez ele possa ser mais aceito sim”, afirma Thais.

Uma das técnicas que ganha destaque no universo das modificações corporais é a Microdermal. Que estéticamente se assemelha a um piercing, porém com a diferença que há apenas um ponto no dispositivo, a entrada. O visual chama a atenção, pois se parece com um prego cravado no corpo. Muitas pessoas usam em locais como bochechas, próximo à boca, pescoço ou braços. A técnica pode ser aplicada em qualquer parte do corpo.

“Eu acredito que qualquer tipo de procedimento pode ser feito em qualquer parte do corpo. Isso não quer dizer que o resultado seja satisfatório. No caso do microdermal procuro fugir sempre de locais com pouca gordura e muita articulação, onde a cicatrização é mais demorada e o risco de atrito é bem maior”, afirma o body piercer Paulo Vitor, do Holy Ink Studio, em Barra Bonita.

Preconceito

Mesmo com a prática incorporada a tendências de comportamento e até na moda, o preconceito e os “olhares tortos” persistam. Os adeptos das modificações corporais precisam se preparar psicologicamente, pois da mesma forma com que a tatuagem um dia foi rótulo para preconceituosos, a prática ainda é uma novidade e causa estranhamento em vários locais.

“Ja sofri sim e não faz muito tempo. Fui ao SUS passar por um gastro, precisava de uma endoscopia, mas por conta dos meus piercing's do rosto o médico disse que eu iria fiar com câncer e me passou exame de hepatite e me recusou a endoscopia, por pura implicância ao meu estilo”, afirma Thais.

Ela ressalta que é comum esse tipo de reação e que nem sempre se trata de preconceito, mas sim conflitos de opinião e gostos. “Não acredito que fique no passado definitivamente e nem que as pessoas são totalmente intolerantes”, completa. 

Para quem se interessar pela prática é importante a procura por estabelecimentos que se enquadrem nas regras impostas pela Vigilância Sanitária. Além da técnica necessária para os procedimentos é importante que os materiais sejam esterilizados.

Essa entrevista foi realizada no ano de 2013 e publicada originalmente na Revista Rock Reload, como material de conclusão de curso nas Faculdades Integradas de Jaú.

O choro é livre

Não importa o que você faça, muito menos as suas boas intenções. O fato é que a partir do momento em que se tem foco em um objetivo, o primeiro efeito colateral é a desaprovação de alguém que rouba a sua energia. Sendo assim o efeito colateral embora seja algo desconfortável num primeiro momento, é um sinal de que você está progredindo e andando na direção desejada.

Pra quê ser bonzinho e perdedor, se você pode ser justo, assertivo e focado? Não importa o que você fizer, quando fizer por um objetivo nobre, sempre irá decepcionar alguém. Por que sempre tem alguém usando a sua energia de muleta para a própria mediocridade. Como diz o ditado popular: o choro é livre.